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Tá me estranhando? Pois deveria.

Pare de ler por um instante e olhe a sua volta. Olhe mesmo. Percebe essa coisa estranha? Não? Então olhe de novo, pois você está perdendo. Dica: não é uma, são várias coisas. Ainda não está vendo? Eu te falo: é qualquer coisa. Não entendeu? Deixe-me te conduzir para ver algumas.

Você está sentado em frente a um objeto complexíssimo – que realiza mais de dois bilhões de cálculos por segundo de zeros e uns, através de semicondutores e outros tipos de materiais –  chamado computador (ou celular). Este objeto tem infinitas funções e possibilidades, mas neste momento está servindo como ferramenta para se conectar à internet – rede composta de cabos marítimos, satélites, servidores, outras máquinas e também pessoas – e mostrar esse texto que você recebeu em seu e-mail ou em uma rede social. Você está vendo alguns símbolos que, unidos, formam palavras de um idioma chamado português. Essa língua que tanto eu quanto você entendemos fluentemente devido a processos de colonização e incontáveis conflitos que possibilitaram essa hegemonia em um território de mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, que arbitrariamente nós, humanos, chamamos de Brasil.

Isso, junto de incontáveis outros fatores, permite que essas palavras se agrupem seguindo a lógica da gramática do idioma, permite que se transmita algum sentido. Dessa forma, ideias completamente abstratas e quase sem respaldo no mundo concreto estão sendo transmitidas de um homem no interior de São Paulo para você.

Mas isso não acontece de forma simples. Seus olhos emitem pulsos elétricos para um órgão que está preso em um caixa escura, mas que é responsável por processar tudo o que você entende, vê e sente. Esse órgão possui aproximadamente 86 bilhões de neurônios, que podem formar 100 trilhões de conexões. Se fosse uma máquina, consumiria 60 milhões de watts por hora, mas por conta de uma evolução lenta em milhares de anos, o cérebro consome 20 watts – menos que uma lâmpada. Para isso funcionar perfeitamente, seu diafragma puxa e empurra ar do seu pulmão que, sem que você tome nem consciência, possibilita, através de estruturas em formas de saco muito pequenos, que o sangue entre em contato com ar, absorvendo oxigênio e liberando o gás carbônico produzido por nosso metabolismo. Isso sem falar em todas as outras tarefas que o corpo faz independentemente e das 10 trilhões de bactérias que te poupam de se preocupar em administrar essa máquina complexa que é o corpo.

Além das todas as operações que formam o que convencionamos chamar de você, temos também os conjuntos maiores, complexos e abstratos dessa espécie específica de macacos chamado humanos (deste planeta geóide específico, nesse sistema solar específico, nessa galáxia específica, nesse universo específico). Formam-se sociedades, com costumes e práticas, distribuição de poder ordenada por política e por uma estrutura chamada capitalismo, que somada ao ambiente digital criou conceitos como marketing de conteúdo – que foi o estopim inicial para eu começar a escrever esse texto aqui. Acho que nem é mais, mas vou te poupar de ler minha dissertação sobre nossas vontades e motivações. Eu poderia continuar infinitamente, já que é uma abordagem inesgotável. Mas acredito que você entendeu meu ponto, certo?

Nosso cérebro é econômico

Como mencionei – eu mesmo me espantei quando descobri, o cérebro é um órgão absurdamente eficiente. Porém, para conseguir realizar proezas tão incríveis, o cérebro também tem que utilizar truques para economizar energia.

Após aprendermos algum conceito, tema, ambiente, cenário, nosso cérebro fixa a informação. Ao encontrarmos novamente com o mesmo estímulo, nosso cérebro consulta o mapa mental registrado anteriormente, nos poupando do esforço de aprendermos tudo novamente e também possibilitando que sejamos mais rápidos nas soluções.

As vantagens são óbvias – não conseguiríamos nos adaptar ao mundo sem elas, muito menos chegar até onde a humanidade chegou. Mas como essa moeda tem dois lados, esse processo também tem suas desvantagens.

Qual a vantagem em estranharmos as coisas?

Uma das principais vantagens é a mesma de se fazer uma releituras. Muitos teóricos, como Sassure, afirmam que o que dá significado às coisas, possibilitando que a definamos em um símbolo, é a diferença. Podemos dizer que uma boa parte do nosso entendimento do mundo e como damos significado é feito de maneira relacional com outros conceitos que já saibamos. Ou seja, sabemos o que é preto porque conhecemos o branco – nesse caso, uma oposição binária.

Assim, quando reanalisamos alguma coisa que já sabemos, podemos criar diferentes conexões e significados já que possuímos uma bagagem maior, possibilitando novas ideias e entendimentos.

A familiaridade que possuímos com tudo à nossa volta também entedia a mente. Passamos a achar que tudo é dado, garantido e chato, mesmo quando há um universo de coisas maravilhosas acontecendo a todo momento, em todo lugar – só estamos cegos para o fantástico.

Os olhos provocadores munidos do porquê, como, onde e etc também previnem que aceitemos tudo como destino inalterável. Ao olharmos com mais atenção, percebemos que muito do que está no mundo foi criado por pessoas como nós – e que pessoas como nós também podem influenciar de uma maneira ou de outra.

Zoom in/Zoom out

Aproximando nossa visão (física ou mental) das microestruturas, podemos perceber todos os fatores e atores que participam em um elemento que antes considerávamos como sendo “indivisível”.

Ao diminuirmos o zoom, podemos ver como são as grandes estruturas e quais são os nexos causais entre eventos e ações de diversas fontes. Também é possível ter um quadro sobre como estamos, onde estávamos e para onde estamos caminhando.

Ao brincarmos com o zoom, saímos do ponto tradicional de onde enxergamos e podemos ter novas perspectivas sobre o que já estamos carecas de saber. De perto ou de longe, tudo é estranho.

Em todas essas modificações da “visão”, além de percebermos as conexões, podemos também perceber os espaços em que é possível alterar algo. Olhar o mundo de forma ativa é a raiz de novos produtos, revoluções sociais, ambientais e da inventividade e criatividade.

Considerar o universo e tudo o que está dentro dele como algo estranho e olhar novamente com olhos novos é tentar entender e permitir questionar tudo o que existe. Caso contrário, continuaremos seguindo a mesma trilha batida, repetida e, ainda assim, absolutamente estranha.